CEGUEIRA SELETIVA
Na minha infância e adolescência nunca gostei de estudar história. Achava um verdadeiro martírio. No período da faculdade também tive grande resistência, por achar desnecessária e chata. Mal sabia eu o quão essencial é essa matéria.
No final do meu curso superior, comecei a entender que saber história é saber aplicar bem os conhecimentos adquiridos, seja na vida pessoal quanto na profissional. Quem não conhece o passado, ignora o presente e compromete o futuro. E isso é em qualquer atividade da vida humana.
Desconsiderar esses fatos, é condenar o planeta e a população ao caos generalizado. Digo isto porque é o que estamos vivendo neste momento conturbado de nossa história, sobretudo no campo político.
Divergência de ideias e posições é natural e salutar ao convívio em sociedade. Afinal de contas, o que seria a vida se fossemos todos iguais e agíssemos da mesma forma? Porém, chegar ao ponto da idiotização é o cúmulo da cegueira seletiva.
Ora, acabamos de passar por processo eleitoral, o mais conturbado da nossa história pós redemocratização, pelo puro analfabetismo político, construindo a cegueira seletiva, tema texto.
Tivemos o primeiro turno das eleições de 2022, no dia 02 de outubro, com a participação de 11 (onze) candidatos à presidência da República, tendo no mínimo 4 (quatro) candidatos com capacidade infinitamente superior aos dois candidatos que disputaram o segundo turno, em 30 de outubro. São eles: Ciro Gomes (PDT); Constituinte Eymael (DC); Jair Bolsonaro (PL); Léo Péricles (UP); Luiz Felipe D’ávila (NOVO); Lula (PT); Padre Kelmon (PTB); Simone Tebet (MDB); Soraya Thronicke (União Brasil); e Vera Lúcia (PSTU). O critério dos melhores candidatos fica a critério do leitor. Certo é que foram para o segundo turno o ruim e o pior.
Contudo, em um país democrático, resta acatar e aceitar a opinião da maioria, mesmo que não seja a que não nos representa. Deixar de votar, votar em branco ou anular o voto, com certeza, não era a melhor alternativa.
Com isto, estivemos diante de uma situação delicada, frente a dois candidatos que foi e é governo, com seus méritos e deméritos. Um governou o país por duas gestões e apresentou resultados positivos para o Brasil. Outro, em exercício do mandato, teve o mérito de dividir os brasileiros entre o bom e o mau, como se esse fosse a representação divina na terra.
Neste ponto é onde a importância do conhecimento de história prevalece. Como mencionei, os dois candidatos no segundo turno das eleições 2022 possuem histórico político (história), assim como alguns dos candidatos no primeiro turno, alguns com experiência em cargos legislativos e executivo, outros com experiência em cargos legislativos, outros sem experiência em cargos eletivos.
Restaram dois: um tachado de comunista e de ladrão, por ter tido condenação judicial; outro tachado de patriota, cristão, a favor da família e da liberdade e símbolo da honestidade.
Ledo engano. O condenado teve prisão decretada ao arrepio do devido processo legal (não estou fazendo juízo de valores de culpa ou inocência), estritamente para ser afastado do processo eleitoral de 2018, visto que tudo indicava que seria eleito já no primeiro turno. Desconheço na história do judiciário brasileiro um processo criminal que tramitou em tempo recorde, desrespeitando todos os princípios legais.
O “honesto”, sofreu condenação penal militar por incitação a desordem e por tentativa de explodir o quartel onde servia, pressionando por reajuste do próprio salário. É um cristão que afirma ser a favor da tortura e que o erro da ditadura foi não ter matado pelo menos 30.000 (trinta mil) pessoas e deveria matar a “petralhada” toda. A favor da família, desrespeitando os princípios cristãos, visto que está no terceiro casamento, fora o fato de ter afirmado usar recursos públicos para “comer gente”. Patriota que entrega a economia nacional nas mãos do capital estrangeiro, com a privatização de setores estratégicos para o desenvolvimento nacional, como a Eletrobras, coincidentemente criada durante a ditadura (ou, se preferirem, regime militar), Petrobras, exemplificativamente, sem falar no total desrespeito e desconsideração que manifesta diariamente contra mulheres, índios, negros, nordestinos, entre outros.
Também, pode ser constatado a olhos claros, que corrupção é a marca registrada do seu governo e da sua carreira política, pessoal e familiar, com rachadinhas, direcionamento de recursos públicos aos seus apoiadores, mediante distribuição de barras de ouro, orçamento secreto, execração de opositores, entre vários outros fatos que podem ser constatados diariamente pelos próprios atos de governo.
É certo afirmar que no atual governo não existe corrupção, porque tudo o que pode incriminar os gestores públicos da união, ou é decretado sigilo ou é trocada a direção dos órgãos investigativos, como a cúpula da Polícia Federal, que troca delegados e agentes das suas respectivas áreas, para que nada seja descoberto, bem como ocorria no período ditatorial, igualmente ao que ocorre na “temida” Venezuela.
Por sua vez, no campo econômico e do desenvolvimento social e empresarial, inafastável a percepção de que nos governos petistas houve crescimento real, tanto com a redução drástica da miséria, quanto na industrialização e construção civil, com direitos individuais e coletivos preservados.
Entretanto, sem entrar no mérito de quem roubou mais ou menos, de quem é o melhor ou o pior, o certo é que numa democracia não há o certo ou o errado, mas sim o respeito a posição da maioria, que não está sendo respeitado atualmente.
Direito de manifestação é fundamental e necessário. Porém, violar o direito de ir e vir, por presunção de eleições fraudadas, é inconcebível. Se houve fraude, que se apresente provas consistentes, através de fatos e documentos e se busque a anulação das eleições e punição dos culpados. Agora, trancar a passagem de quem quer e necessita trabalhar, é crime tão ou mais grave que a corrupção.
Com isto, considerando que a cegueira seletiva é um grave fato por desconhecimento (ou distorção propositada) da história, condena a nação ao abismo social e humano, determinada por uma elite do atraso, conforme obra de Jessé José Freire de Souza, que é sociólogo, advogado, professor universitário, escritor e pesquisador brasileiro que atua nas áreas de Teoria Social, pensamento social brasileiro e de estudos teórico-empíricos sobre a desigualdade e as classes sociais no Brasil contemporâneo.
Já foi assim no passado, está se repetindo no presente. O pavor do comunismo, que NUNCA existiu, NÃO existe e provavelmente NUNCA existirá no país, faz com pessoas totalmente ignorantes da realidade acreditem cegamente em algo que imaginam ser verdade. Mula Sem Cabeça. Saci Pererê, Boi da Cara Preta e Bicho Papão só existem na cabeça de quem acredita em MITO!
Ronaldo André Stenge Pavão
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